Em construção
Pesquisa Artística
Somos um grupo de artistas niteroienses que juntos, realizamos investigações sobre o impacto das instituições psiquiátricas na sociedade, utilizando arte como uma forma de expressão e reflexão.

O surgimento do projeto
O projeto Vestígios de contenção surgiu a partir da cena curta Coisas Escondidas (2021), apresentada no Festival Internacional de Teatro de Niterói como desdobramento da pesquisa.
A partir de objetos herdados de sua família — fotografias, documentos, cartas e pequenos vestígios materiais — a artista constrói uma narrativa autobiográfica que investiga as relações entre memória, arquivo e herança. Em cena, os objetos deixam de funcionar apenas como testemunhos do passado e passam a atuar como mediadores de histórias silenciadas, revelando camadas de memória que atravessam gerações.
O trabalho investiga como experiências íntimas e familiares podem expandir-se para questões coletivas, transformando o arquivo doméstico em um espaço de reflexão sobre pertencimento, apagamento e permanência. Ao ativar esses objetos em cena, a obra propõe uma escuta sensível das materialidades que resistem ao tempo e das histórias que continuam vivas através delas.


Em desenvolvimento
A experiência de Coisas Escondidas marcou o início de uma investigação sobre memória, arquivo e materialidade a partir de objetos herdados e histórias familiares. Ao ativar fotografias, documentos e objetos cotidianos em cena, o trabalho buscava compreender como pequenas narrativas íntimas poderiam revelar camadas mais amplas da memória coletiva.
Esse percurso desdobrou-se posteriormente em Objetos Capturados, projeto dedicado à memória do antigo prédio da Escola de Teatro da UNIRIO, localizado na Praia do Flamengo. A pesquisa ampliou a escala de observação dos objetos para os edifícios, compreendendo a arquitetura como um arquivo capaz de reunir relatos, documentos, fotografias e experiências de diferentes gerações. Através da criação de um acervo digital colaborativo, o projeto investigou como um edifício demolido continua existindo através das memórias daqueles que o habitaram.
É desse deslocamento — do objeto para o edifício — que surge Vestígios de Contenção. A pesquisa volta-se para a antiga Casa de Saúde Alfredo Neves, hospital psiquiátrico localizado em Santa Rosa, Niterói, demolido em 2024. A partir de uma história familiar diretamente atravessada por esse espaço, o projeto passa a investigar não apenas a memória de um edifício, mas as múltiplas camadas históricas inscritas em um território.
Assim, o percurso iniciado em Coisas Escondidas e ampliado em Objetos Capturados encontra em Vestígios de Contenção uma nova etapa: a passagem do objeto ao edifício e do edifício ao território. A pesquisa passa a compreender ruas, ruínas, terrenos, documentos, relatos e vestígios arquitetônicos como materialidades capazes de ativar memórias coletivas e produzir experiências públicas de escuta, encontro e reflexão sobre história, patrimônio, saúde mental e reparação simbólica.
Conheça as atuais ações artísticas do projeto!
Intervenções Urbanas
No dia 30 de maio de 2026, mês da Luta Antimanicomial, realizamos a primeira ação pública de Vestígios de Contenção, uma intervenção artística colaborativa realizada diante dos vestígios da antiga Casa de Saúde Alfredo Neves, em Santa Rosa, Niterói.
Partindo da pesquisa desenvolvida por Vanessa Dias desde 2020 sobre Teatro de Objetos Documentais, memória e arquivo, a ação reuniu artistas da cidade em torno de uma pergunta comum: o que permanece quando um edifício desaparece?
A intervenção ocupou o espaço onde funcionou o hospital psiquiátrico, demolido em 2024, propondo uma experiência de escuta, encontro e ativação da memória. Através de objetos, documentos, desenhos, relatos e dispositivos performativos, o público foi convidado a refletir sobre as histórias inscritas naquele território e sobre as vidas atravessadas por aquele espaço.
Participaram da ação a artista e pesquisadora Clara Lobo, com o trabalho Escutagrafar, a artista visual Martina Carvalho, realizando uma ação de ilustração e registro gráfico do território, e a artista cênica e pesquisadora Vanessa Dias, apresentando a instalação performativa desenvolvida a partir de objetos, documentos e vestígios relacionados à história da Casa de Saúde Alfredo Neves.
A ação contou ainda com o apoio e colaboração de Bernardo Leão, Renê Machado e Horácio Storani, fundamentais para a realização da intervenção.
Ao longo da tarde, moradores, artistas, pesquisadores e transeuntes compartilharam memórias, relatos e reflexões sobre o bairro, o hospital e as transformações urbanas da cidade. A presença do vereador Professor Túlio fortaleceu o diálogo sobre a importância da preservação da memória local e abriu a possibilidade de futuras ações voltadas à criação de dispositivos permanentes de memória para o local.
Mais do que uma apresentação artística, a intervenção marcou o nascimento público de Vestígios de Contenção como uma plataforma de pesquisa, criação e ação coletiva dedicada à ativação de memórias através da arte, da escuta e da ocupação poética dos territórios. Fotos de René Machado.




Artistas convidadas
A artista e pesquisadora Clara Lobo apresentou o trabalho Escutagrafar, pesquisa que articula grafia, gesto e escuta através de práticas performativas desenvolvidas em espaços públicos. Sua participação trouxe para a ação reflexões sobre os rastros deixados pelas histórias, os processos de escuta coletiva e as materialidades dos arquivos. O trabalho dialoga com investigações realizadas pela artista em ações como Escucho Sueños, Escucho Restos e Escucho Gestos, além de sua pesquisa com livros de artista construídos a partir de prontuários, fotografias, cartas, tecidos e outros vestígios documentais.

Também integrou a ação a artista visual e ilustradora Martina Carvalho, que realizou uma intervenção gráfica a partir da observação do espaço e dos encontros produzidos ao longo da tarde. Sua presença acrescentou ao projeto uma dimensão visual de registro e elaboração poética do território, transformando em desenho as camadas de memória, os vestígios arquitetônicos e as relações construídas entre o público e o local da intervenção.Ao reunir diferentes linguagens artísticas, Vestígios de Contenção reafirma seu caráter colaborativo e multidisciplinar, entendendo a memória como um campo de construção coletiva e a arte como uma ferramenta de escuta, encontro e ativação de histórias que permanecem vivas nos territórios.


